Por seforutil.com | Publicado em 27 de março de 2026

Adenomiose: conheça os principais aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos fundamentados em evidências científicas atualizadas.
Introdução
A adenomiose é uma condição ginecológica caracterizada pela presença de glândulas e estroma endometrial dentro do miométrio, resultando em hipertrofia e hiperplasia muscular. Essa infiltração ectópica do tecido endometrial provoca um aumento difuso ou focal do útero, frequentemente associado a dor pélvica e sangramento uterino anormal. Estudos recentes estimam que a prevalência da adenomiose varie entre 20% e 35% das mulheres em idade reprodutiva, embora a incidência real possa ser subestimada devido à dificuldade diagnóstica.
Fisiopatologia
A fisiopatologia da adenomiose ainda não é completamente elucidada, mas duas teorias principais são amplamente aceitas:
1. Teoria da invaginação endometrial: propõe que o endométrio basal invade o miométrio através da zona juncional, possivelmente devido a microtraumas uterinos, como partos, curetagens ou cirurgias uterinas.
2. Teoria da metaplasia das células-tronco miometriais: sugere que células-tronco do miométrio se diferenciam em tecido endometrial sob estímulo hormonal ou inflamatório.
Estudos histológicos e de imagem demonstram que a zona juncional (interface entre endométrio e miométrio) desempenha papel central na gênese da doença. Alterações estruturais e inflamatórias nessa região favorecem a penetração do tecido endometrial no miométrio.
Fatores de risco
Diversos fatores de risco têm sido associados à adenomiose, incluindo:
✔ Idade entre 35 e 50 anos.
✔ Multiparidade.
✔ História de cesarianas ou curetagens.
✔ Exposição prolongada ao estrogênio.
✔ Presença concomitante de endometriose ou leiomiomas.
Estudos epidemiológicos, como o de Taran et al. (2013, Human Reproduction Update), demonstram que mulheres com adenomiose frequentemente apresentam histórico de procedimentos uterinos prévios e maior tempo de menstruação.
Manifestações clínicas
Os sintomas mais comuns incluem:
✔ Dismenorreia progressiva.
✔ Menorragia (sangramento menstrual intenso).
✔ Metrorragia (sangramento intermenstrual).
✔ Dor pélvica crônica.
✔ Infertilidade.
A intensidade dos sintomas não se correlaciona necessariamente com a extensão da doença. Em alguns casos, a adenomiose é assintomática e descoberta incidentalmente em exames de imagem ou após histerectomia.
Diagnóstico
O diagnóstico da adenomiose evoluiu significativamente com o avanço das técnicas de imagem. Atualmente, a ressonância magnética (RM) e a ultrassonografia transvaginal (USG-TV) são os métodos mais utilizados.
Ultrassonografia transvaginal
A USG-TV apresenta sensibilidade de 72–82% e especificidade de 81–85% para o diagnóstico de adenomiose. Os achados típicos incluem:
✔ Espessamento assimétrico do miométrio.
✔ Presença de cistos miometriais.
✔ Estrias lineares ecogênicas.
✔ Zona juncional irregular.
Ressonância magnética
A RM é considerada o padrão-ouro não invasivo. Critérios diagnósticos incluem:
✔ Espessamento da zona juncional >12 mm.
✔ Presença de focos de alta intensidade em T2 ou T1 (indicando hemorragia intramiometrial).
✔ Aumento difuso do volume uterino.
Estudos como o de Bazot et al. (2001, Radiology) confirmam a alta acurácia da RM, com sensibilidade de até 88% e especificidade de 93%.
Diagnóstico diferencial
A adenomiose deve ser diferenciada de:
✔ Leiomiomas uterinos (miomas).
✔ Endometriose profunda.
✔ Hiperplasia endometrial.
✔ Câncer endometrial.
A distinção é essencial para o manejo adequado, pois as abordagens terapêuticas diferem significativamente.
Impacto na fertilidade
A adenomiose tem sido associada à infertilidade e falhas de implantação embrionária. Estudos sugerem que a inflamação crônica, alterações na contratilidade uterina e comprometimento da receptividade endometrial contribuem para a redução da fertilidade. Pesquisas recentes, como a de García-Solares et al. (2018, Fertility and Sterility), indicam que o tratamento hormonal pode melhorar as taxas de sucesso em reprodução assistida.
Tratamento
O tratamento da adenomiose depende da idade, desejo reprodutivo e gravidade dos sintomas. As opções incluem abordagens farmacológicas, intervencionistas e cirúrgicas.
Tratamento medicamentoso
✔ Anticoncepcionais hormonais combinados: reduzem o sangramento e a dor.
✔ Progestagênios (dienogeste, acetato de medroxiprogesterona): promovem atrofia endometrial.
✔ Dispositivo intrauterino com levonorgestrel (DIU-LNG): eficaz na redução da menorragia e dor pélvica, com melhora significativa da qualidade de vida.
✔ Análogos do GnRH: induzem hipoestrogenismo temporário, reduzindo o volume uterino e os sintomas, mas com efeitos colaterais limitantes.
✔ Inibidores da aromatase: utilizados em casos refratários, especialmente em associação com progestagênios.
Tratamento intervencionista
✔ Embolização das artérias uterinas (EAU): alternativa minimamente invasiva que reduz o fluxo sanguíneo uterino, levando à regressão da adenomiose. Estudos mostram melhora sintomática em até 80% dos casos.
✔ Ablação endometrial e técnicas de radiofrequência: indicadas para casos selecionados, com resultados variáveis.
Tratamento cirúrgico
✔ Adenomiomectomia: remoção localizada do tecido adenomiótico, indicada para mulheres que desejam preservar a fertilidade.
✔ Histerectomia: tratamento definitivo, reservado para casos graves e refratários, especialmente em mulheres sem desejo reprodutivo.
Prognóstico
O prognóstico da adenomiose depende da extensão da doença e da resposta ao tratamento. Embora o controle sintomático seja alcançado na maioria dos casos, a recorrência pode ocorrer após a suspensão da terapia hormonal. A histerectomia continua sendo a única cura definitiva.
Conclusão
A adenomiose é uma condição ginecológica complexa, frequentemente subdiagnosticada, que impacta significativamente a qualidade de vida e a fertilidade feminina. O diagnóstico precoce, baseado em métodos de imagem de alta resolução, e o manejo individualizado são fundamentais para o controle eficaz da doença. O avanço das terapias hormonais e minimamente invasivas tem ampliado as opções de tratamento, reduzindo a necessidade de intervenções radicais.
Referências:
▪ Bazot M, et al. Radiology. 2001;220(3):683–692.
▪ Taran FA, et al. Human Reproduction Update. 2013;19(4):396–411.
▪ García-Solares J, et al. Fertility and Sterility. 2018;109(3):379–390.
▪ Vercellini P, et al. Best Practice & Research Clinical Obstetrics & Gynaecology. 2018;51:61–72.
▪ Dueholm M. Ultrasound Obstet Gynecol. 2017;49(5):561–569.
▪ Pontis A, et al. Gynecological Endocrinology. 2016;32(9):693–697.
