Estudo conta: retina pode prever doenças cardíacas

Por seforutil.com | Última atualização em 16/03/2026

Foto de olho

Estudo revela que a retina pode servir como sinal precoce de doenças cardíacas, abrindo novas possibilidades para diagnósticos e tratamentos mais precisos.

Visão geral

Uma recente investigação científica explora a ligação entre a retina e o sistema vascular. A pesquisa indica que os vasos sanguíneos presentes na retina podem atuar como um reflexo da saúde do coração e do organismo como um todo, incluindo fatores relacionados à longevidade e ao envelhecimento. Especialistas analisam os resultados e discutem suas implicações para a saúde.

O corpo humano funciona como um sistema interconectado, no qual cada parte influencia as demais — e algumas dessas relações ainda surpreendem a ciência. Um novo estudo chama atenção para a conexão pouco abordada entre os olhos e o coração, mostrando como a retina e o sistema vascular podem refletir o estado geral de saúde, o envelhecimento e até a expectativa de vida.

A pesquisa, publicada na revista ScienceAdvances em outubro, examinou imagens da retina e informações genéticas de mais de 74 mil participantes. O objetivo foi compreender como as redes de minúsculos vasos sanguíneos da retina — conhecidas como microvasculatura retiniana — podem funcionar como uma “janela para o sistema circulatório”, explica Jacqueline Bowen, OD, presidente da Associação Americana de Optometria. Segundo ela, essa abordagem pode auxiliar médicos na previsão, detecção, prevenção e tratamento de doenças cardíacas.

Os cientistas observaram que indivíduos com uma microvasculatura mais “simples” ou com menos ramificações apresentavam níveis mais altos de inflamação, maior propensão a doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais, além de menor expectativa de vida, conforme destaca Sergiu DarabantMD, cardiologista do Miami Cardiac & Vascular Institute, integrante do Baptist Health South Florida. Isso ocorre porque vasos retinianos menos complexos são “menos resistentes e podem indicar fluxo sanguíneo reduzido ou danos vasculares, servindo como um alerta para possíveis problemas circulatórios”, explica Dr. Bowen.

Em contrapartida, pessoas com vasos sanguíneos mais ramificados e complexos — semelhantes a galhos de árvores — tendem a apresentar maior longevidade, corações mais saudáveis e sistemas vasculares mais adaptáveis, acrescenta Dr. Bowen. Os pesquisadores também identificaram genes e proteínas específicas, como a MMP12 e o receptor IgG-Fc IIb, que parecem estar envolvidos nesses processos, contribuindo para a inflamação relacionada ao envelhecimento.

Em síntese, os resultados reforçam “a importância de utilizar a microvasculatura da retina como ferramenta para identificar outras doenças sistêmicas”, afirma Benjamin Bert, MD, oftalmologista certificado pelo conselho do MemorialCare Orange Coast Medical Center em Fountain Valley, CA.

O que são as proteínas MMP12 e o receptor IgG-Fc tipo IIb?

Essas proteínas estão associadas à inflamação crônica de baixo grau que se desenvolve com o envelhecimento, conhecida como “inflamação crônica relacionada à idade”, conforme explica o Dr. Bowen. Esse processo inflamatório aumenta o risco de diversas doenças típicas do envelhecimento. “A MMP12 atua na remodelação dos tecidos, mas também pode estar envolvida em danos vasculares associados à idade. Já o receptor IgG-Fc IIb participa de mecanismos imunológicos e inflamatórios que influenciam o processo de envelhecimento”, destaca o Dr. Bowen.

Pesquisas indicam que a inflamação “pode acelerar o comprometimento das artérias e contribuir para o surgimento de infartos, doenças arteriais periféricas e acidentes vasculares cerebrais”, explica o Dr. Ferhaan Ahmad, MD, Ph.D., diretor do Programa de Genética Cardiovascular da Universidade de Iowa. “Há a possibilidade de que terapias direcionadas a essas proteínas melhorem a saúde cardiovascular. Contudo, ainda são necessários muitos estudos para confirmar seu potencial como alvos terapêuticos.”

Relação entre a saúde ocular e a saúde cardiovascular

A retina é o único local do corpo onde os vasos sanguíneos podem ser observados e avaliados diretamente, de forma não invasiva e sem necessidade de biópsia, segundo os especialistas. Ela contém uma rede vascular semelhante à encontrada no cérebro e nos rins, o que fornece informações valiosas sobre o estado geral de saúde. “Por isso, os exames de fundo de olho com dilatação da pupila — nos quais colírios são usados para ampliar a pupila e permitir melhor visualização das estruturas oculares — têm sido, há muito tempo, uma ferramenta essencial para analisar essa vasculatura e identificar doenças cardiovasculares subjacentes, como diabetes e hipertensão”, explica o Dr. Bert.

Como os vasos oculares refletem o que ocorre em outras partes do organismo, sua análise também auxilia os optometristas a identificar precocemente sinais de alterações metabólicas associadas a doenças endócrinas, autoimunes, neurológicas e outras, observa o Dr. Bowen.

Além disso, o Dr. Ahmad ressalta que as artérias da retina estão sujeitas às mesmas pressões e condições que os demais vasos sanguíneos do corpo. Assim, seu estado costuma refletir a saúde vascular geral do indivíduo.

Em resumo

A realização de exames oftalmológicos anuais é essencial não apenas para preservar a visão, mas também para monitorar a saúde cardiovascular e de outros sistemas vitais. “Os optometristas são capazes de identificar mais de 270 doenças graves e desenvolver estratégias de prevenção personalizadas para melhorar os resultados de saúde dos pacientes”, afirma o Dr. Bowen. A dilatação da pupila e o uso de exames avançados de imagem da retina são métodos eficazes para detectar hipertensão, diabetes, colesterol elevado e outras condições. Além disso, representam uma importante ferramenta preventiva. “Como as imagens podem ser arquivadas e comparadas ao longo do tempo, elas permitem acompanhar mudanças sutis e identificar problemas em estágios iniciais”, conclui o Dr. Bowen.